Enquanto ela dormia


Quando ele a olhava daquele jeito, nua, com o rosto sereno, parecendo não ter vida, ou mesmo parecendo tão vulnerável às odiosidades do mundo, é que ele percebia o quanto a amava. Apesar de toda a crise incansável de uma luta sem fim, de palavras grotescas em uma tarde chuvosa, ele sabia que ela era aquela que deveria estar ao lado dele em todos os momentos. Era dela o único sorriso que clareava suas ideias e tranquilizava sua alma, era dela o poder de fazê-lo se sentir em paz com o mundo.

E ali, nua, com a respiração leve, embrulhada em lençóis de seda de um lugar qualquer, é que ele sabia que um dia ia acabar, mesmo que fosse o tempo, mesmo que fosse o desgaste, mesmo que fosse a luta do cotidiano, ia acabar um dia. 

E essa angústia apertava forte seu coração: sua mulher, sua menina, com olhinhos brilhantes, um dia iria deixá-lo, mesmo que fosse levada pela morte, que é algo certeiro que temos em frente.

Mas um ser humano não pode viver de dúvidas tão dolorosas, tão pessimistas assim.

Ele deixou de lado seus pensamentos e, nos braços magros e acalentadores de sua rainha, aconchegou-se de modo a não acordá-la. E ali, naquele momento, o mundo inteiro parou para ouvir o canto dos anjos, e o tempo se aquietou, ficando cada vez mais parado até se estagnar.

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